No céu pincelado com espaças nuvens, o sol avermelhado nascia, inundando as árvores do parque não muito distante, onde os pássaros em seus ninhos já cantavam uma linda harmonia, indicando que um novo dia estava começando. Poderia ser apenas mais um dia em sua vida, porém não o era. Todos os outros, por anos, acordava indisposto em enfrentar mais um dia de falsas esperanças. Falsos sorrisos. Falsa felicidade. Matheus já estava de certa forma, acostumado com tudo aquilo. “Amanhã melhora...” - falava em vão para si mesmo. A idéia de que o próximo dia seria melhor do que o presente sempre o agradou, mesmo que no fundo sabia que, no máximo, seria igual ao anterior.
Mas aquele era diferente, estava em seu último dia naquele lugar. Passara o outro ano inteiro planejando por ele. As malas já estavam prontas, tudo conferido - passagens e passaporte. Seria na manhã seguinte que ele partiria para o desconhecido das terras Suíças. Passaria, ao menos, dois anos longe de tudo, por um motivo maior que sua família poderia entender - apesar de fazê-lo inconscientemente. Entretanto, não era isso que o preocupava. Antes de ir, ele precisava fazer algo. Algo muito difícil que se recusou em fazer por mais anos que gostava de pensar. Pegou seu casaco – era um daqueles dias que apesar do sol, fazia frio – e saiu de casa. O lugar não era longe, então decidiu ir a pé, pois precisava pensar sobre o que estava prestes a ocorrer.
Matheus sempre deixou transparecer um caráter taciturno, o que em parte não era verdade. O silêncio fazia parte de sua personalidade, porém com aqueles que lhe interessavam sempre foi o contrário do que imaginavam. Contudo, achava que essa parte de sua personalidade sempre deixara os outros com receio, principalmente as mulheres. Mas não vinha ao caso, pensou ele. Aquilo era algo intrínseco a ele, logo não o conseguiria mudar, então não havia motivo para perder aquele tempo pensando.
As ruas estavam estranhamente calmas. O dia estava perfeito demais. Talvez, divagou ele, que pela primeira vez as coisas poderiam seguir as falsas esperanças que ele sempre deteve. Depois de tantos anos, tornara-se uma pessoa mais pessimista e cética do que já era, mas afinal, nunca tivera sorte nesses aspectos... ”Ou talvez, eu nunca fui homem o suficiente para tentar” – sempre pensava. Riu. Ele já sabia o que ia acontecer.
Já estava a uma quadra do bar quando seu celular tocou. Era ela. “Vou me atrasar alguns minutinhos!” – disse. Ele riu. Já saiba o que ia acontecer. Decidiu fumar um cigarro antes de entrar no bar. Um costume que adquirira não há muito tempo, e que sempre foi contra. Mas não vinha ao caso, aquilo era totalmente reversível, então não havia motivo para perder aquele tempo pensando. Contudo, ele estava vazio. Não haviam pensamentos a serem pensados, faltavam poucos minutos para alguns momentos de felicidade e depois, solidão. Riu novamente, ele já estava acostumado.
O bar era um de seus preferidos. Daqueles com pé direito bem baixo, com cadeiras e mesas de madeira escura – cuja nunca conseguia lembrar o nome. As paredes, devido ao teto baixo, pareciam ser mais decoradas do que realmente eram, e refletiam de maneira inexplicavelmente agradável a luz baixa do lugar. Um ambiente que o fazia feliz. E a música também.
Pediu uma cerveja enquanto aguardava a chegada dela.
Dez minutos se passaram quando ouviu aquela voz suave e conhecida. “Oi!” - disse ela em um tom exageradamente feliz. Como sempre, parecia que alguém tinha apertado o botão Stop da sua vida, e ele pôde observar cada detalhe dela. Os cabelos longos, pretos e lisos, perfeitamente cortados. Os olhos que hipnotizavam qualquer ser vivo pensante daquele mundo. O sorriso que fazia qualquer um sorrir também. Enfim, cada minúcia que ele não cansava de olhar e pensar. Ao mesmo tempo, aquele sentimento de angustia também o tomava conta.
A conversa estava ótima. Já estavam ali a mais de 1 hora, e haviam conversado de tudo desde Pokémon até Schopenhauer. Entretanto, apesar da felicidade que ele estava sentindo, pensou que já era hora de contar de uma vez. Riu. E o fizera, ironicamente, ao som de sua música predileta.
Era engraçado, pensou ele. Como as coisas podem mudar simplesmente depois de algumas palavras. Após alguns minutos de silêncio, que fizeram aquela esperança já enterrada querer voltar do buraco que estava, os lábios dela começaram a se movimentar:
-Eu não sei o que dizer... Você sabe que eu gosto de você, mas eu amo o Leonardo – disse ela com um tom de quem acabara de tomar um soco. “You could love me or not...”
- Sim, eu sei. E é por isso que nunca mais irei falar com você – ele respirou profundamente, tentando mostrar confiança em suas palavras - Minha vida tem sido miserável. “… But either way I've got to wake up to face another day tomorrow morning...”
- Eu... Eu não sabia... – mais uma vez com um ar meio desnorteado, e agora com ralas lágrimas aparentes, ela respondeu.
- Unicamente porque minha intenção nunca foi de deixar você saber – respondeu com aquele ar frio e calculista que sempre o tomava em situações que qualquer um já teria perdido o controle – Ficarei 2 anos fora e não irei fazer mais contato, nunca mais. Só assim conseguirei esquecer você e seguir em frente com minha vida.
Não. Por mais que ele tenha imaginado isso enquanto fumava, nunca teria conseguido o fazer, pensou ele. Riu. Apagou o cigarro e entrou no bar.
A conversa estava ótima. Já estavam ali a mais de 1 hora, e haviam conversado de tudo desde Pokémon até Camus. Entretanto, já estava tarde, ele ainda tinha que jantar com a família. Despediram-se então, com um longo e forte abraço. “Eu te aviso quando chegar lá!” – disse ele antes de ela entrar no carro.
Voltou para casa rindo. Não risos falsos, como os outros, esse eram reais. “Afinal, quem não gosta de sofrer um pouco” – pensou ele, em voz alta. Amanhã uma nova vida o aguardava, tais pensamentos seriam menos freqüentes, concluiu ele. “Ou ao menos eu espero...”
“I've still got a photo in my wallet of you
I've got to stop my self
From picking up the phone and just calling you
I've got to keep my emotions together and forever
So don't be afraid
I can't erase memories with the actions I seize
And I cannot erase your smiles and your eyes
With your hair in the breeze
And the only way for me to move on
Is to write it in a song that life goes on”
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